218 052 092

Os anti-inflamatórios não-esteróides e o enfarte agudo do miocárdio

  • A verdadeira relação entre os anti-inflamatórios não-esteróides e o enfarte agudo do miocárdio

     

    Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência - CEMBE


    QUESTÃO CLÍNICA

    Qual o verdadeiro risco de enfarte agudo do miocárdio (EAM) por consumo regular de anti-inflamatórios não-esteróides (AINEs)?

    DESCRIÇÃO DO ESTUDO

    Trata-se de uma metanálise que incluiu 4 estudos elaborados a partir de bases de dados de sistemas de saúde no Canadá e na Europa, apurando em conjunto uma coorte de 446.763 indivíduos com idade média de 73 anos, sendo 55% homens.

    Os estudos incluídos compararam a exposição a AINEs com a não exposição, em pacientes idosos ou da população geral e o risco específico de EAM, separando-o dos restantes eventos cardiovasculares e permitindo também a comparação entre fármacos.

    Foram excluídos estudos que não reportaram comorbilidades e tratamentos concomitantes, calendarização comparativa clara entre os indivíduos expostos e não expostos e aqueles realizados antes da retirada do rofecoxib do mercado.

    OUTCOME

    Odds ratio ajustado de primeiro EAM após entrada no estudo para cada categoria de exposição na data do evento versus o não consumo de AINEs no ano precedente

    RESULTADOS

    A seguinte tabela (adoptada de doi:10.7326/ACPJC-2017-167-6-030) sumariza o outcome primário consoante o AINE consumido:

     

     

     

    CONCLUSÕES

    Todos os AINEs analisados se associam a um risco aumentado de EAM.

    COMENTÁRIO

    Já existia evidência sugestiva de que tanto os AINEs tradicionais como os COX-2 seletivos poderiam aumentar o risco de EAM. Permaneciam, contudo, pouco compreendidos alguns aspectos fundamentais desse risco, como a sua evolução temporal, o efeito das diferentes doses e durações de tratamento, e o risco comparativo entre os vários AINEs.

    A presente meta análise surge com o objetivo de atualizar a evidência existente, permitindo elaborar conclusões mais concisas acerca desses aspectos menos compreendidos. Uma das suas vantagens face aos estudos anteriores é que esta análise utiliza dados individuais de pacientes que correspondem ao uso real dos AINEs no contexto clínico, isto porque as doses estandardizadas e duração da terapêutica usadas em estudos anteriores podem não representar a realidade clínica de muitos pacientes que consomem AINEs em doses baixas ou variáveis, intermitentes e frequentemente alternando entre diferentes fármacos. No entanto, possui também algumas limitações como o número reduzido de estudos incluídos e as limitações próprias de qualquer análise de base de dados, baseadas nas prescrições, não confirmando realmente a toma do medicamento.

    Os resultados vêm reforçar a evidência existente, sugerindo ainda que o aumento do risco de EAM é um efeito transversal a toda a classe dos AINEs. Os autores realçaram também que esse risco é dependente da dose, mas não parece aumentar com a duração da terapêutica após o 1º mês.

    Esta análise, ao demonstrar que o uso quotidiano de AINEs pode levar a um aumento de 20% a 50% no risco de EAM, podendo mesmo chegar aos 75% após 1 a 4 semanas de ibuprofeno ou naproxeno em altas doses, chama a atenção para a cautela necessária aquando da prescrição desta classe farmacológica, mesmo quando referente a uso intermitente e em baixas doses.

    Se mesmo os pacientes com uso ligeiro a moderado de AINEs estão em risco, a situação dos pacientes que sofrem de dor crónica ainda é mais preocupante. Para este subgrupo, e todos aqueles cujas condições requerem terapêutica anti-inflamatória crónica, não existe nenhuma opção “segura” de AINE, nem nenhuma alternativa igualmente eficaz para ser administrada. Assim, e sobretudo nos indivíduos com risco cardiovascular de base aumentado, os AINEs apenas devem ser utilizados se forem indispensáveis e sempre na mínima dose eficaz.

    Autores: Juan Rachadell Pereira, Raquel Vareda Alves, António Vaz Carneiro

    Fonte: UNIVADIS